
O carnaval sempre me deprimiu um pouco. Eu nunca gostei de música de carnaval, nunca gostei de povo no carnaval e nunca gostei de clima de carnaval. Entenda-se que eu estou falando de tudo isso nos tempos atuais. Quando eu vejo releituras de marchinhas feitas pelo Camelo ou pela Orquestra Imperial e quando leio sobre a história do Pierrot e da Colombina, tudo parece ser muito lírico, fantástico e desejável. Mas a situação "carnaval" de hoje é muito diferente disso.
O carnaval, para os belorizontinos, resume-se, normalmente, a uma viagem para uma cidade qualquer do interior. Lá, os habitantes da capital sairão para as ruas, se embebedarão, dançarão músicas batucantes, dormirão aos montes e comprimidos numa casa alugada qualquer e se relacionarão com o maior número de pessoas possível. Para os não adeptos dessa prática, sobram as viagens para "retiros" ou "acampamentos", no caso dos católicos e evangélicos, ou a própria capital mesmo, com seus lugares vazios, sua ausência incomum de filas e seus garçons atendendo rapidamente, o que é impensável num dia comum.
Eu, no carnaval, ando praticando a última opção: fico na capital mesmo. Pelo menos aqui há a minha cama, o meu travesseiro, a TV com seus canais em centenas e o silêncio. De noite há os mesmos programas e lugares de sempre que me divertem independentemente da data. Então vivo o carnaval como se fosse um fim de semana qualquer. Mas é inegável o fato de que no fundo há uma sensação de desconforto. É como se fosse uma sensação de inadequação e isso me incomoda, mesmo que sutilmente. Parece que o dia amanhece mais saudoso e uma espécie de melancolia calma toma conta de mim durante o decorrer do dia. Mas aí escurece e tudo fica bem de novo. É bem estranho e é uma sensação que só dá no carnaval. É como se fosse um carma desses dias de fevereiro, um poder sobrenatural deles que dita algo como "Ou você se adequa às nossas regras, ou vai ficar se sentindo esquisito até que nós nos retiremos". Como eu não consigo mesmo me adequar por não ver graça alguma nessa prática da migração para o interior, sofro com a sensação esquisita do carma carnavalesco anualmente.
Mas é uma sensação completamente distraível e convivível, principalmente pela certeza de que quarta tudo isso acaba, tudo volta ao normal. O poder sobrenatural carmático carnavalesco vai embora e me dá mais um ano de sossego.
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5 comentários:
rs tb acho que vc escrevinhou ... aqui no rio as ruas nao ficam tao vazias tudo fica cheio
Aqui em Uberlândia 99% da população vai ver os parentes em Goiânia ou passar o feriado prolongado em Caldas Novas. Os que ficam têm a oportunidade de curtir potes e potes de sorvete vendo filme ou ir ao shopping ouvir os grupos de axé que tocam lá.
De qqr maneira, ngm deixa de ser afetado pelo poder do carnaval.
a gente comenta quando a gente concorda também? é pq eu nao tenho nada pra falar nao. é isso ai. hoje mesmo eu to mimimi aqui, com exatamente a mesma sensação. :~
vai passar, vai passar.
li. tenho que comentar. acho que, naturalmente, faço parte desse grupo seu. nunca me encaixei nesse clima todo de carnaval e sempre cultivei essa culpa. isso não é legal. esse ano, no entanto, peguei minhas malas e aceitei um convite para uma cidade do interior, dessas ai que vc comentou. juro que quando cheguei tive medo, mas no dia seguinte já notei que podia ser eu mesma sem precisar passar por todo esse climão que me incomoda. fiz meu carnaval valer a pena e posso dizer, hoje, que já não tenho mais essa sensação estranha. bom, a cidade contribuiu: não fica lotada demais e as pessoas que vão tem uma certa religiosidade de manter tudo em ordem - se é possível! -, mas valeu a pena e ano que vem to de volta...
falei sobre esse assunto no meu post de hoje. lê?
ps: ah!a cidade chama Prados, é no interior de Minas. caso se queira se arriscar, fica a dica! :)
Na União Soviética, o Carnaval desloca VOCÊ!!!
- Reversal Russa sobre o carnaval
Agora, falando sério, o bom do carnaval não é me sentir deslocado, mas perceber que não sou o único!
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