domingo, 15 de fevereiro de 2009

O fool.

"Dia após dia
sozinho na colina.
O homem com o sorriso idiota se mantém perfeitamente parado,
mas ninguém quer saber dele,
todo mundo vê que ele não passa de um idiota
e ele nunca responde a ninguém.

O idiota da colina
vê o sol se pondo
e os olhos de sua face
vêem o mundo girando à sua volta.

Ele se sente bem no caminho,
cabeça nas núvens,
o homem com mil vozes fala alto o bastante
mas ninguém nunca o ouve
ou o som que ele parece fazer
e ele parece nunca notar esse fato.

O idiota da colina
vê o sol se pondo
e os olhos de sua face
vêem o mundo girando à sua volta.

(...)"
(Tradução minha de parte de "The fool on the hill", música de The Beatles com autoria de Lennon/McCartney.)

Embora essa música seja creditada à famosa dupla Lennon/McCartney, hoje se sabe que ela é de autoria apenas de Paul McCartney. Aceitável, ela tem mesmo cara de música do Paul. Especulações diversas são feitas sobre a motivação de Paul ao escrevê-la. Uns dizem que ela fala sobre aquele Maharishi, o indiano doidão que o George Harrison seguia, outros dizem que ela fala de uma experiência meio espiritual que Paul teve ao caminhar perto de não sei aonde na Inglaterra...

Bem, a minha opinião é a de que essa música fala do próprio Paul em algum momento qualquer da vida dele. O "fool" da história tem muito do Paul, com certeza. É exatamente esse processo usado pelo Paul o processo que todo mundo usa pra pensar sobre si mesmo em muitos momentos da vida. Ao apontar os erros de terceiros, a gente se projeta nestes como numa tentativa de tornar nossos próprios erros mais aceitáveis, mais humanos. Ao apontar para si mesmo os equívocos, fraquezas e ignorâncias das outras pessoas, nós, quase sempre inconscientemente, nos confortamos. É um processo de auto-enganação cômodo e praticado por todo mundo, o que acaba o tornando quase saudável e legítimo, já que "todo mundo o pratica mesmo". Eu realmente não sei dizer se é errado, acho inclusive que não é. O "fool" acaba nos sendo muito útil e, se formos pensar, é bem provável que em algum momento da vida a gente já serviu de "fool" pra outra pessoa também, mesmo que a gente não saiba.

No caso de músicas e outras construções poéticas, a prática de se criar um "fool" imaginário não é menos comum do que na vida real. Taí o exemplo da música do Paul, que não é único. Todo mundo conhece uma música que conta das desventuras de um personagem errante qualquer, isso vai desde a "Natasha" do Capital Inicial, passando pelos "Velho e o Moço" dos Los Hermanos e chegando ao "Hotel Califórnia" do Eagles (que, inclusive, nos mostra que o "fool" nem sempre é uma pessoa física. O "Hotel Califórnia", embora seja um hotel, tem muito de humano, ou seja, é personificado). A construção do "fool" nesse tipo de arte acaba sendo, além de útil, uma prática bastante versátil porque frequentemente dá um toque de lirismo para o que é dito.

Há, também, além dessa possibilidade de adição de lirismo, uma ainda mais bacana: é a de que o "fool" do autor da música ou do poema possa se tornar o "fool" de outras pessoas quando essa música ou esse poema se torna público. Por vezes nos projetamos em "fools" de canções diversas e o mesmo personagem pode servir de "fool" para n pessoas diferentes, o que aponta mais uma vez para o fato de essa prática ser comum e natural, ainda que inconsciente.

Por tais motivos, construir um "fool" imaginário ou escolher alguma terceira pessoa, em algum momento, como um "fool" pode ser muito aceitável e muito menos vexamoso do que me pareceu à primeira vista. Acaba sendo inclusive mais inteligente, porque fica mais fácil analisar a situação. Funciona da mesma maneira que uma pessoa "de fora" entende com mais clareza a briga entre um casal, por exemplo. Vendo "de fora", ou seja, construindo um "fool", a gente acaba saindo da posição de "suspeito para falar de si próprio" e enxerga o(s) problema(s) com mais clareza e desenvoltura.

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Para quem não conhece a música "The fool on the hill", faço o convite para que a ouça. Para quem conhece, faço o convite para que ouça de novo:

8 comentários:

Lucas Petes disse...

primeiro a comentar, primeiro a concordar. humanos e seus momentos. :|

Gui disse...

Pra provar que eu sou humano, eu tive que escrever wores... Mal sabem eles que muito mais humano e ridículo do que isso é sugerir a troca de "O idiota da montanha" por "O tolinho na colina". hahaha

Gui disse...

Excelente análize, aliás. =)


dwatis

Gui disse...

Ou seria analyse? ou analyze e análise? O.O
aaahhh


sterier

Jean Prestes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jean Prestes disse...

"Ao apontar os erros de terceitos"...

a gente acaba esquecendo dos nossos (y)

Hélio disse...

Notável. Mas não de todo diferente.

A Paloma do dia que eu conheci e a Paloma da comparação de agora podem não ser a mesma, sem dúvida, mas a capacidade analytica (pegando emprestado de nosso amigo acima) dela é uma característica marcante, ontem, hoje e sempre!

Só toma cuidado porque filósofo quase sempre é desempregado (exceto se for francês, mas os franceses são todos estranhos mesmo...)!!!

CAPTCHA DE HOJE: cudine!

Daniela disse...

Rá, SuperPaloma!
[foi só pra registrar minha descoberta]