Observar e dar risadas - essa é a técnica que venho usando há uns dois anos para suportar a sociedade. Ela é a estratégia social mais simples e eficaz que fui capaz de sintetizar em vinte anos de vida. A mais aplicável, a menos problemática e, principalmente, a mais útil.Consiste-se no que ela mesma diz: olhar e rir. Olhar para a mediocridade e rir. Olhar para a injustiça e rir. Olhar para o incompreensível e rir. Olhar até mesmo para o engraçado e rir. Mas não uma risada audível, não uma risada em ondas sonoras propagáveis. A risada a que me refiro é dessas risadas psicológicas que damos, dessas em que nosso semblante fica praticamente inalterado, mas sabemos que nossa cabeça está achando a maior graça. Esse tipo de risada não reflete exatamente um deboche, mas um tipo de aceitação sarcástica e, ao mesmo tempo, de benevolência passiva em relação à sociedade como um todo, incluindo nós mesmos. Ao ser dado, esse tipo de risada meio que serve como uma resposta-solução que se dá a si próprio para o que não tem solução real. Simplesmente olha-se para a situação problema, seja ela qual for, e, na inexistência de uma solução para ela, dá-se risadas.
Para mim, essa ação é inegavelmente reconfortante por mais que eu tenha consciência de que ela seja paliativa. Ser paliativo não nega ser reconfortante. E se vale a máxima "Dos males, o menor", eu a aplico à minha assimilação da sociedade desse jeito que contei. Se ser paliativo é o mal menor no meu processo de convivência com a sociedade, então que seja. Já me dou por satisfeita - e ainda dou risadas.
É um fato: eu nunca fui faficheira nem nunca vou ser. Não quero mudar o mundo não, obrigada. Se ele é assim, se a sociedade é assim, se eu estou dentro deles, então ótimo: jogo conforme as regras e sinto-me recorrentes vezes enojada, mas respiro fundo e dou minhas risadas mentais. Isso não elimina minha capacidade reflexiva [tá aqui o blog que não me deixa mentir] e serve como atenuante do incômodo que a consciência do meu papel quase insignificante traz. Além disso, essa prática ainda me dá um certo orgulho por ser tão simples e eficaz, como já disse. Olho para a minha própria invenção e me orgulho dela por ser tão banal, mas tão aplicável; tão simplória, mas tão versátil; tão egoísta, mas tão pacífica. Olho para essas propriedades da minha técnica e detecto o quão medíocre ela pode ser, mas o quão grandiosa pode se tornar, mesmo que seja numa busca por paz de espírito. A própria técnica se recebe, então olho para ela e dou risadas por sua existência. E isso me deixa paliativamente satisfeitíssima.
1 comentários:
"E que você descubra
Que rir é bom
Mas que rir de tudo
É desespero..."
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