quinta-feira, 9 de julho de 2009

Rock é árvore

Eu tenho uma teoria. Não, não, na verdade é uma alegoria. Talvez uma teoria alegórica... é, é isso mesmo: uma teoria alegórica. Ela se consiste e se resume na seguinte assertiva: "Rock é árvore".

Já prestou atenção na quantidade de árvores que existem no mundo? No tanto de espécies diferentes delas? Na quantidade de formatos e tamanhos e cores e texturas que elas, tanto entre espécies quanto dentro de uma única espécie, têm? Pois é, eu também. E já reparou que, ainda assim, sempre que você vê uma árvore, você consegue dizer que aquilo é uma árvore? Se estiverem na sua frente um arbusto, uma moita, uma trepadeira e uma árvore, você consegue diferenciar a árvore dos demais, mesmo que todos eles tenham folhas e sejam verdes e sésseis, não é? É óbvio que sim. Mas o fato não deixa de ser interessante.

Onde entra o rock nesta história? Vamos lá, eu mostro. Já prestou atenção na quantidade de rock que existe no mundo? No tanto de sub-estilos diferentes dele? Na quantidade de tempos e ritmos e inspirações e pesos que ele, tanto entre sub-estilos quanto dentro de um único sub-estilo, tem? Pois é, eu, novamente, também. E já reparou que, ainda assim, sempre que você ouve uma canção de rock, você consegue dizer que aquilo é rock? Se você ouvir em sequência uma canção blues, outra jazz, outra funk [como James Brown, não aquelas coisas cariocas] e outra rock, você consegue diferenciar o rock dos demais estilos, mesmo que todos eles tenham bateria, guitarra, contra-baixo e vocal, não é? É óbvio que sim. Mas o fato não deixa de ser novamente interessante.

Repare: quantos ipês amarelos você já viu na vida? Vários, suponho [ainda mais se você for mineiro]. Não houve um ou alguns que eram muito mais vistosos, muito mais bonitos de se ver do que outros? Afirmativo, certo? E você foi capaz de concluir isso mesmo que a espécie dos ipês amarelos fosse a sua preferida. Em outras palavras: mesmo se você gosta de todos os ipês amarelos, alguns exemplares da espécie são muito mais admiráveis. Agora repare mais uma vez: quantas bandas de indie rock você já ouviu na vida? Ou de rock progressivo, classic rock, não importa, escolha seu sub-estilo preferido. Escolhido? Continuemos. Quantas bandas desse sub-estilo você já ouviu? Várias, suponho. Não houve uma ou algumas que eram muito mais legais, muito mais "vistosas", muito mais agradáveis de se ouvir do que outras? E você foi capaz de concluir isso mesmo que o indie rock [ou o seu outro sub-estilo escolhido] fosse o seu preferido. Em outras palavras: mesmo se você gosta do estilo indie rock como um todo, algumas bandas desse estilo são muito mais admiráveis.

Vamos lá, é inegável a semelhança! Rock é árvore, meus amigos. É a alegoria mais funcional que eu já criei na vida! Rock é árvore, espécie é estilo, exemplar da espécie é banda. Folha verde é guitarra, fotossíntese é ritmo, tronco é bateria. Flor é uma espécie de pandeirola: alguns têm, alguns não. A altura e o tamanho das árvores são como o peso das canções: umas tem muito, outras nem tanto. Mas sempre que houver tais características, você vai poder chamar a canção de rock e a planta de árvore. E nem venha querer chamar arbusto de punk rock. Arbusto é, no máximo, um jazz meia boca.


Imagem retirada de uma camiseta da Nonsense.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Aubrey.

"And Aubrey was her name,
a not so very ordinary girl or name.
But who's to blame?

For a love that wouldn't bloom.
For the hearts that never played in tune.
Like a lovely melody that everyone can sing,
take away the words that rhyme it doesn't mean a thing."

Aubrey - Bread [Composição de David Gates]


Eu sempre quis conhecer a Aubrey. Sim, conhecer. Isso porque eu tenho certeza de que ela existiu. Ao contrário de tantas personagens que se inventa para serem protagonistas de canção [eu mesma faço isso com frequência nas canções da banda], a Aubrey existiu. Pode ser que ela não se chamasse exatamente Aubrey, nomes não comuns existem aos montes. Talvez ela se chamasse Chelsea ou Eleanor. Mas ela existiu.

Por que eu tenho essa certeza? Porque essa canção tem traços biográficos fortíssimos. Quem tiver dúvidas procure a letra inteira no Google. Eu escolhi publicar apenas as duas primeiras estrofes porque são o que me interessa neste texto. Contudo, a canção inteira é adorável. Melancólica e adorável. Isso porque a Aubrey é misteriosamente adorável. E é por isso que eu sempre quis conhecê-la. Se essa oportunidade existisse, eu diria: "Olá, Aubrey. Você é apaixonante. Obrigada por ter motivado essa canção. Eu te vejo como uma Musa lá da Grécia antiga. O David Gates foi somente seu Aedo."

Bem, agora vem a razão para que apenas as duas primeiras estrofes me interessem. Ainda que de forma parcial, recentemente eu conheci uma Aubrey. Eu conheci as duas primeiras estrofes da Aubrey ao menos. E no momento em que conheci, soube: aí está a Aubrey, ainda que incompleta.

Essa espécie de Aubrey apareceu assim, tal qual a Aubrey original: nem nome nem pessoa chamáveis comuns, mas a quem culpar? Para um amor que provavelmente não floresceria; para corações que nunca bateriam no mesmo tempo. Como numa adorável melodia que qualquer um pode cantar: tira-se as palavras que rimam e ela já não significa nada.

Em resumo: uma improbabilidade adorável. Mas improvável. E tentar concretizar o improvável pode até dar certo, mas é arriscado e nem sempre dá. Às vezes pode dar certo só por um tempo... mas se é/foi adorável, é/foi válido.

O fato é que Aubrey, enquanto canção, passou a me apaixonar ainda mais agora porque, de certa forma, eu a vivi. Agora, mesmo que incompletamente, eu a conheci.

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Taí a música.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

O observar e rir.

Observar e dar risadas - essa é a técnica que venho usando há uns dois anos para suportar a sociedade. Ela é a estratégia social mais simples e eficaz que fui capaz de sintetizar em vinte anos de vida. A mais aplicável, a menos problemática e, principalmente, a mais útil.

Consiste-se no que ela mesma diz: olhar e rir. Olhar para a mediocridade e rir. Olhar para a injustiça e rir. Olhar para o incompreensível e rir. Olhar até mesmo para o engraçado e rir. Mas não uma risada audível, não uma risada em ondas sonoras propagáveis. A risada a que me refiro é dessas risadas psicológicas que damos, dessas em que nosso semblante fica praticamente inalterado, mas sabemos que nossa cabeça está achando a maior graça. Esse tipo de risada não reflete exatamente um deboche, mas um tipo de aceitação sarcástica e, ao mesmo tempo, de benevolência passiva em relação à sociedade como um todo, incluindo nós mesmos. Ao ser dado, esse tipo de risada meio que serve como uma resposta-solução que se dá a si próprio para o que não tem solução real. Simplesmente olha-se para a situação problema, seja ela qual for, e, na inexistência de uma solução para ela, dá-se risadas.

Para mim, essa ação é inegavelmente reconfortante por mais que eu tenha consciência de que ela seja paliativa. Ser paliativo não nega ser reconfortante. E se vale a máxima "Dos males, o menor", eu a aplico à minha assimilação da sociedade desse jeito que contei. Se ser paliativo é o mal menor no meu processo de convivência com a sociedade, então que seja. Já me dou por satisfeita - e ainda dou risadas.

É um fato: eu nunca fui faficheira nem nunca vou ser. Não quero mudar o mundo não, obrigada. Se ele é assim, se a sociedade é assim, se eu estou dentro deles, então ótimo: jogo conforme as regras e sinto-me recorrentes vezes enojada, mas respiro fundo e dou minhas risadas mentais. Isso não elimina minha capacidade reflexiva [tá aqui o blog que não me deixa mentir] e serve como atenuante do incômodo que a consciência do meu papel quase insignificante traz. Além disso, essa prática ainda me dá um certo orgulho por ser tão simples e eficaz, como já disse. Olho para a minha própria invenção e me orgulho dela por ser tão banal, mas tão aplicável; tão simplória, mas tão versátil; tão egoísta, mas tão pacífica. Olho para essas propriedades da minha técnica e detecto o quão medíocre ela pode ser, mas o quão grandiosa pode se tornar, mesmo que seja numa busca por paz de espírito. A própria técnica se recebe, então olho para ela e dou risadas por sua existência. E isso me deixa paliativamente satisfeitíssima.

sábado, 11 de abril de 2009

A necessidade de propagar conquistas.

Sim, lá vou eu analisar o comportamento do ser humano de novo. Eu deveria fazer Sociologia e não Letras. Tudo bem, nem todo mundo é perfeito. E é a partir daí mesmo que eu parto.

A "perfeição" por si só já é uma característica questionável. Isso pelo fato de que "perfeição" é um substantivo meio picareta. A classe de palavras "substantivo" contém as palavras que, dentre outras definições, dão nome aos seres, às coisas e às substâncias. Como eu nunca na vida vi a "perfeição" ou ouvi falar de alguém que tenha visto, suponho que ela não exista mesmo. Fica então existindo o substantivo "perfeição" para dar nome a quê? Ao que não existe? É, é exatamente isso.

Picaretagem detectada, sigo em frente. É claro que cada um tem seu jeito de mostrar para o mundo o quão nada perfeito é. Eu, por exemplo, às vezes não me aguento com a minha necessidade de interpretar e assimilar os motivos das pessoas para que elas façam o que fazem na vida, seja lá o que for que elas façam. Quer coisa mais chata? Quer mania mais cacoete social? Pois é, é uma das minhas formas de mostrar minha "nadaperfeição" para o mundo. Essa minha característica pode incomodar alguém e eu inclusive penso que incomoda, eu só não sei quem. E se incomoda, é porque é detectável. É porque, na realidade, todas as nossas "formas de mostrar ao mundo o quão nada perfeitos somos" são sempre detectáveis e detectadas por alguém, mesmo que esse alguém seja desse povo que, como eu, fica interpretando e assimilando os motivadores da sociedade.

Bem, finalmente chego ao título [minha capacidade altíssima de concisão deve ser outra das minhas "nadaperfeições"]. Nesses últimos dias, a "nadaperfeição" que mais vem me chamando a atenção, e me colocando a pensar também, é a necessidade de propagar conquistas. Falando assim, sem maiores explicações, isso não parece exatamente algo criticável. Propagar conquistas pode, inclusive, ser um ato saudável. É ótimo poder falar para a mãe que algo no trabalho deu certo ou contar para um bom amigo que se conseguiu uma meta almejada há alguns meses. A mãe e os bons amigos estão preparados para ouvir esse tipo de notícia quando ela aparecer porque são próximos, são confiáveis. Em outras palavras, propagar as próprias conquistas nesse círculo de afinidade é ótimo, vira motivo de felicidade geral, de comemoração, etc.

O problema aparece quando o ser propagador das conquistas tem necessidade de sair difundindo-as ao Deus dará. Parece que de repente se torna imprescindível contar para pessoas que se mal conhece que se conseguiu alguma coisa, mesmo que essa coisa seja banal ou então previsível por qualquer um. Vamos lá, não dá para pensar que alguém com quem se trocou duas palavras na vida inteira faz questão de vir te falar que ganhou um descascador de batatas melhor do que o seu por pura ingenuidade e bondade no coração. Também não dá para pensar que um alguém de quem se tem notícias apenas por sites de relacionamento, como o Orkut, de repente te liga para contar que se viu na obrigação de se desculpar por ter conseguido a vaga que você desejava na fábrica de botões porque se sentiu verdadeiramente penalizado. Vamos descer do salto agora: que mané verdadeiramente penalizado! Isso é o exemplo mais nítido de necessidade de propagar conquistas. E a motivação para isso? Inflar o ego, afirmar-se perante a sociedade, mostrar que é subestimado de forma equivocada... pode ser tudo isso. Mas o mais importante é que essa ação denuncia, pelo menos para os olhos atentos, uma motivação anterior a tudo isso e que, sinceramente, é péssima para o propagador das conquistas: fica bem clara a necessidade que este tem ou tinha de provar alguma coisa para o seu ouvinte, de mostrar algo como "Olha, posso ser bom como você" ou "Está vendo? Sou capaz de te superar". Pois é, as possibilidades de ser bom como o ouvinte ou de ser capaz de o superar realmente ficam provadas, mas à custa de quê? Dessa denúncia plangente: "Sim, você sempre me incomodou, por isso estou tendo esta necessidade de te contar das minhas conquistas. Preciso me afirmar para você para me sentir bem".

E aí, valeu a pena a propagação? "Tudo vale a pena se a alma não é pequena", eu sei, Pessoa. Neste caso que contei a alma pode até ser grande, mas são pequenas as inteligências emocional e social. Pequeníssimas.

domingo, 15 de março de 2009

Prática inexata.

Normalmente eu gosto de pensar no quanto as pessoas são diferentes e gosto mais ainda de comparar suas diferenças, sendo estas e aquelas de qualquer tipo. Isso quando é normalmente, quando tá tudo legal, tá tudo nos conformes, tá tudo caminhando harmoniosamente como deveria ser.

Contudo, essa minha prática deixa de ser prazerosa quando alguma coisa na minha vida desanda. A coisa desandada por sua vez tem, quase sempre, ligação com uma quebra de expectativa que eu sofro. Algo que uma pessoa faz para ou em relação a mim, sendo que esse algo não era previsível, e aí o meu gosto pela diversidade social desaparece. É aquela velha história: a gente só sente a dor quando o pé pisado é o nosso. Aí a máscara de "a boa entendedora e analista da sociedade" cai e eu fico sem chão, com raiva, com raiva de estar sem chão, com raiva de estar com raiva por estar sem chão e isso acaba que gera mais falta de chão e raiva.

Êta vulnerabilidadezinha duma figa, odeio ela. Escondo ela até não poder mais. Até que eu mesma não mais a encontre. Mas ela é uma fulana difícil de ser vencida, o máximo que ela mesma permite é ser atenuada. E isso é extremamente frustrante. Isso dá mais raiva e mais ausência de chão.

Uso a técnica do desenho animado, conto até dez. Durmo uma noite esperando o dia seguinte porque "amanhã é um novo dia". A frustração concentrada vai se diluindo, o chão vai até reaparecendo. Mas a raiva persiste. Persiste e se multifaceta: dá raiva não só da vulnerabilidade, mas também da impossibilidade de prever as diferenças entre as pessoas quando uma delas sou eu. Dá raiva, ainda, de esse meu gostar, o de comparar as diferenças, ser algo tão inexato: prazeroso e execrável. Interessante e assustador. Enriquecedor e desmotivante.

Funciona assim com qualquer droga, né? Tem sempre a parte boa tentando camuflar a parte ruim. E o bom viciado vai usando, mesmo quando a parte ruim sobrepõe a boa. E eu que dizia não usar drogas...